Ficar horas sem água já provoca transtornos. Permanecer dias consecutivos sem abastecimento, em uma cidade inteira, escancara um problema que vai muito além de uma simples manutenção. A crise enfrentada por moradores de Alta Floresta reacendeu um debate inevitável: como uma concessionária responsável por um serviço essencial pode deixar milhares de pessoas desabastecidas por quase uma semana? E onde está a fiscalização da agência reguladora diante de uma situação dessa gravidade?
As denúncias chegaram ao Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), levadas por vereadores do município durante audiência com o presidente da Corte, conselheiro Sérgio Ricardo. Os parlamentares relataram que, apesar dos reajustes periódicos nas tarifas pagas pelos consumidores, os problemas no abastecimento continuam se repetindo, gerando indignação entre a população.
O episódio mais recente se tornou símbolo da insatisfação popular. Famílias precisaram improvisar para armazenar água, comerciantes enfrentaram dificuldades para manter suas atividades, escolas e estabelecimentos tiveram a rotina afetada e moradores passaram dias convivendo com a incerteza sobre quando o abastecimento seria restabelecido.
A principal pergunta que surge é inevitável: uma empresa que administra um serviço público essencial não deveria possuir equipamentos de reserva e um plano de contingência capaz de evitar que toda uma cidade fique sem água durante uma manutenção?
Ao comentar o caso, o presidente do Tribunal de Contas não poupou críticas à situação.
“Deixar uma cidade cinco dias sem abastecimento é de uma incompetência fora do comum. A empresa tem que ter um sistema sobressalente para operar a distribuição quando houver manutenção”, afirmou Sérgio Ricardo.
A declaração reforça um questionamento que ecoa entre os consumidores: se a concessionária é remunerada para garantir a continuidade do abastecimento, por que uma manutenção foi suficiente para comprometer o fornecimento de água de praticamente todo o município?
Além das falhas operacionais, cresce a cobrança sobre os órgãos responsáveis pela fiscalização do contrato de concessão. Afinal, quais providências foram adotadas diante das sucessivas reclamações? Houve aplicação de penalidades? A concessionária está cumprindo integralmente as metas e obrigações previstas no contrato? Os consumidores terão algum tipo de compensação pelos dias em que ficaram privados de um serviço essencial?
Sérgio Ricardo informou que toda a documentação entregue pelos vereadores será analisada pelo Tribunal.
“Todas essas informações já viraram documentos, e nós vamos, no momento certo, fazer com que todas essas entidades prestem contas e se expliquem sobre essas denúncias.”
Para o vereador Dida Pires, a situação exige uma resposta imediata dos órgãos de controle. Como a concessão permanece vigente até 2032, ele defende que seja realizada uma auditoria para verificar se a empresa vem cumprindo todas as suas obrigações contratuais.
“Não é justo continuar prestando um serviço de má qualidade. Pedimos ao presidente uma equipe do TCE para fazer a auditoria e ajudar para que a empresa cumpra o contrato e atenda bem a população.”
O presidente do Tribunal também destacou a importância do papel fiscalizador exercido pelos vereadores e reafirmou que a instituição está aberta para receber denúncias sobre a prestação dos serviços públicos.
“As informações são prestadas pelos vereadores, que são os fiscais do município. O vereador é o fiscal da cidade. Espero que outros vereadores de outras cidades venham trazer ao Tribunal as informações de como está a gestão e de como está sendo investido o dinheiro público. O tribunal está sempre de portas abertas para a sociedade e para os agentes públicos.”
Após o episódio, a Águas Alta Floresta informou que o sistema entrou em processo de recuperação e que a maior parte do abastecimento havia sido restabelecida, permanecendo alguns bairros com baixa pressão até a estabilização completa da rede.
Entretanto, a normalização do serviço não encerra o debate. A população continua aguardando respostas concretas sobre as causas da interrupção, as medidas adotadas para evitar novas ocorrências e a eventual responsabilização pelos prejuízos causados aos consumidores.
Mais do que restabelecer o fornecimento de água, o caso coloca em evidência a necessidade de transparência, planejamento operacional e fiscalização efetiva. Afinal, quando um serviço essencial deixa milhares de pessoas sem água durante vários dias, a sociedade espera não apenas explicações, mas também responsabilidades claramente definidas e providências capazes de impedir que o problema volte a se repetir.