Primavera do Leste – O peso do que não foi feito

O Gabinete às dez da manhã é caótico. Centenas de documentos empilhados, pessoas aguardando a chamada, café fresquinho e um prefeito bem-humorado que fala antes de ser perguntado. Foi assim o encontro desta reportagem com Sérgio Machnic, no gabinete do Paço Municipal. Em meio à rotina de assinaturas que consome boa parte do dia de qualquer chefe do executivo municipal, Machnic falou sobre os problemas agora crônicos, postos de saúde que faltam e a metáfora que define sua visão de gestão: “É mais fácil manobrar uma bicicleta do que um transatlântico.” Esta matéria é resultado dessa conversa.
Sérgio Machnic herdou uma máquina pública em colapso silencioso. A paciência de Primavera do Leste acabou antes do prazo, mas o diagnóstico do prefeito pode explicar por quê.
Basta entrar em um carro de aplicativo em Primavera do Leste para ouvir uma reclamação. Em quatro quilômetros de corrida, que podem custar vinte reais, é raro o motorista que não mencione o estado das ruas, a espera na UPA ou a sensação difusa de que algo saiu dos trilhos. Nas páginas de comentários das redes sociais, a conclusão é a mesma: os primaverenses fazem coro em torno de uma percepção comum. A cidade não é a mesma de antes.
Para quem olha de fora, isso parece uma contradição. Primavera do Leste é, por qualquer métrica, uma das histórias de crescimento mais expressivas do Centro-Oeste. Fundada há quarenta anos, 2026 marca o aniversário redondo, a cidade saiu de um assentamento agrícola para se consolidar como polo de produção no sudeste do Mato Grosso, atraindo capital estrangeiro e se posicionando na vanguarda do agronegócio regional. Em 2010, com cerca de 52 mil habitantes, a cidade funcionava: asfalto de qualidade, estrutura de saúde básica razoável, gestão que conseguia transformar em execução as demandas ainda gerenciáveis de uma população em expansão controlada.
Hoje, Primavera do Leste tem mais de 100 mil habitantes. E os problemas de quem cresceu rápido demais.
O crescimento populacional da cidade não foi acompanhado pelo amadurecimento da infraestrutura pública. Durante a última década, enquanto os loteamentos se multiplicavam e os condomínios ganhavam endereço, o planejamento para equipamentos essenciais, postos de saúde, escolas, saneamento, mobilidade, ficou para trás. O resultado é um passivo acumulado que chegou ao colo da nova gestão em janeiro de 2025.
Em 2024, o eleitor primaverense fez uma escolha que, a princípio, parece improvável: elegeu com mais de 60% dos votos válidos Sérgio Machnic, produtor rural que estava há vinte anos afastado da vida pública, derrotando Ademir de Góes, candidato sustentado pela gestão de Leonardo Bortolin. A leitura mais rasa é a de um azarão. A leitura mais precisa é a de um eleitorado que votou contra anos de acúmulo silencioso de problemas.
A vitória de Machnic reuniu um arco de apoios heterogêneo, do ex-prefeito Getúlio Viana ao deputado Carlos Avallone, com presença da família Bolsonaro na campanha.                                    Uma coalizão construída menos por afinidade ideológica e mais em torno de um discurso de ruptura. O problema de todo discurso de ruptura é o que vem depois dele.
“É mais fácil manobrar uma bicicleta do que um transatlântico”
No gabinete do Paço Municipal, cercado de papéis para assinar, Sérgio Machnic disse essa frase sem ser perguntado. Depois ofereceu açúcar para o café e continuou: “A população de Primavera tem pressa. E ela tem razão. A cidade não trata bem os que chegaram depois, os mais pobres, os que mais precisam.”
Então apontou para um mapa projetado na televisão. Dezessete pontos azuis, distribuídos pelo território municipal, representando as Unidades Básicas de Saúde da cidade. Ele mesmo fez a pergunta antes de respondê-la: “Sabe quantas Primavera deveria ter?” Vinte e nove.
A defasagem não é obra da gestão atual, é o resultado de uma década em que a  cobertura de atenção primária não acompanhou o crescimento da população.                                                          O efeito prático é conhecido por qualquer primaverense que já tentou atendimento: a UPA, inaugurada em 2016 e dimensionada para uma cidade com outra escala, funciona hoje como porta de entrada para casos que deveriam ser resolvidos nos bairros, em postos de saúde que simplesmente não existem em número suficiente.
“A UPA é um problema porque faltam equipes nos postos e faltam postos nos bairros.                    Ela recebe quem poderia ter sido diagnosticado com hipertensão, evitado um infarto, evitado uma infecção, e isso só acontece nos bairros. Primavera deixou de construir atenção primária. Nós sabemos disso e estamos resolvendo,” disse o prefeito.
O diagnóstico é duro e a argumentação tem consistência interna: não é possível corrigir em dois anos o que não foi construído em dez. A questão que permanece em aberto, e que esta matéria não fecha, porque ainda está sendo respondida  é o ritmo e a profundidade do que está sendo feito agora.
Na saúde, a gestão registrou avanços na cobertura vacinal, incluindo a resposta a um surto de sarampo e a conquista da certificação nacional de imunização. As bases para ampliar a atenção primária, segundo o prefeito, estão em estruturação o que, em linguagem de gestão pública, significa que os resultados concretos ainda virão.
Na educação, dois movimentos distintos: a distribuição de mais de dez mil kits escolares para crianças da rede pública municipal  com impacto mensurável nos índices de alfabetização  e a conquista da instalação de um campus da Universidade Federal de Rondonópolis em Primavera do Leste, com perspectiva de abertura de vagas ainda esse ano.
Na infraestrutura urbana, obras de drenagem pluvial e recapeamento asfáltico em bairros historicamente esquecidos. Nas estradas rurais, avanços no programa de manutenção e recuperação do sistema viário do campo.
Machnic foi enfático ao falar sobre composição de equipe: disse que a gestão não olha coloração partidária, mas competência, um recado político relevante em uma cidade onde a máquina pública tende a ser ocupada por aliados de primeira hora.
Primavera do Leste tem pressa. Sérgio Machnic sabe disso e, ao contrário do que a impaciência popular às vezes sugere, não parece incomodado com a cobrança.
“Simplesmente não dá pra fazer em dois anos o que não fizeram em dez.                                          Mas eu já venci um desafio pior,” disse, enquanto procurava um dos papéis sobre a mesa.
O desafio de qualquer gestão que chega com discurso de ruptura é o mesmo: tornar visível o trabalho invisível. Refazer fundações não aparece em foto. Abrir postos de saúde nos bairros demora mais do que tapar um buraco e tirar um vídeo. E a impaciência do eleitor raramente distingue o que é herança do que é negligência atual.
O transatlântico está virando. Devagar, como os transatlânticos viram.                                     

Os primaverenses estão na proa, com o relógio na mão.

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