Brasil avança na ratificação do acordo Mercosul-UE sob pressão do agro por salvaguardas

Tratado que pode criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo avança na Câmara Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul aprovou na terça-feira (24) o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, passo que acelera a tramitação do tratado no Congresso Nacional. O texto agora segue para o plenário da Câmara dos Deputados e pode ser votado ainda nesta semana.

Negociado ao longo de mais de 25 anos, o acordo prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas que abrangem mais de 90% do comércio entre os blocos. Se plenamente implementado, criará um mercado integrado de mais de 700 milhões de pessoas, consolidando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou prioridade à votação diante do cenário internacional marcado por incertezas comerciais, especialmente relacionadas à política tarifária dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil precisa buscar previsibilidade nas relações comerciais externas.

No parecer aprovado, o relator na Representação Brasileira, Arlindo Chinaglia (PT-SP), argumenta que o tratado amplia oportunidades de inovação, facilita a importação de bens de capital e pode impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento sustentável.

Apesar do avanço no Brasil, o acordo enfrenta resistência na Europa. Parlamentares europeus encaminharam o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, movimento que pode atrasar sua implementação em até dois anos. Ainda assim, diplomatas avaliam a possibilidade de aplicação provisória já a partir de março, caso haja ratificação parcial.

Como funciona a tramitação

O processo de internalização começou com o envio da mensagem presidencial ao Congresso, em 2 de fevereiro. Após análise na Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul, o texto segue para o plenário da Câmara. Se aprovado, será encaminhado ao Senado.

Além do Brasil, cada país integrante do Mercosul deverá ratificar o acordo conforme seus próprios ritos legislativos. A vigência plena depende da aprovação de todos os membros, embora possa haver aplicação provisória em etapas distintas.

No Senado, a Comissão de Relações Exteriores criou um grupo de trabalho para acompanhar a tramitação e os desdobramentos do acordo, por iniciativa do presidente do colegiado, Nelsinho Trad (PSD-MS).

Agro pressiona por proteção

Paralelamente ao avanço legislativo, o governo negocia com o setor agropecuário a edição de um decreto que estabeleça salvaguardas para produtos agrícolas brasileiros. O tema ganhou força após o Parlamento Europeu aprovar regras mais rígidas para importações agrícolas no âmbito do acordo.

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Presidente Lula com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Uma das medidas prevê que, caso as importações de um produto sensível cresçam 5% na média de três anos, a União Europeia poderá abrir investigação para eventual suspensão de benefícios tarifários. O percentual é mais restritivo do que a proposta original da Comissão Europeia, que previa gatilho de 10%.

A preocupação do setor foi reforçada durante reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária com o relator do acordo na Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP). O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Pedro Lupion (Republicanos-PR), afirmou que a adoção de salvaguardas nacionais é urgente para evitar prejuízos à competitividade brasileira.

Segundo ele, produtos como milho, carne bovina e açúcar registraram crescimentos recentes de exportação muito superiores ao limite de 5%, o que poderia acionar mecanismos de restrição europeus. Para o setor, um acordo de livre comércio precisa garantir equilíbrio entre as partes.

Ratificação sem alterações

O relator Marcos Pereira indicou que o texto do acordo não deve sofrer alterações no Congresso, uma vez que tratados internacionais são ratificados ou rejeitados na íntegra. Ele, no entanto, afirmou que poderá apresentar recomendações a partir do diálogo com setores produtivos e com o governo.

O vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que o decreto com salvaguardas está em preparação e deve ser encaminhado à Casa Civil nos próximos dias. A expectativa é que o tema seja discutido antes da votação em plenário.

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