O Brasil chega ao segundo turno mergulhado em uma das maiores crises de confiança institucional de sua história recente. Para uma parcela expressiva da sociedade, aquilo que deveria ser uma disputa eleitoral entre projetos de país transformou-se em uma batalha política muito maior: de um lado, quem defende a manutenção do modelo atual; do outro, quem acredita que o país precisa romper com práticas, alianças e estruturas que considera responsáveis pelo enfraquecimento das instituições.
Durante anos, ouvimos que nossa democracia estava consolidada. Que as instituições funcionavam, que as regras eram claras e que a vontade popular seria soberana. Hoje, essa certeza está longe de ser unanimidade.
As decisões e manifestações de ministros do STF e do TSE passaram a ocupar o centro de um debate que não pode mais ser ignorado: qual deve ser o limite de atuação das instituições dentro de uma democracia? Críticos do sistema afirmam que houve uma expansão excessiva do poder do Judiciário e questionam até que ponto decisões judiciais podem interferir no ambiente político e eleitoral.
A frase que circula nas redes sociais — “Vamos precisar ir votar ou STF/TSE já escolheram nosso presidente?” — é um meme, não uma prova de que uma eleição esteja previamente decidida. Mas o fato de uma frase assim encontrar espaço demonstra o tamanho da desconfiança existente entre parte dos brasileiros.
E aqui está o verdadeiro perigo: uma democracia não sobrevive apenas porque existem urnas. Ela precisa de confiança.
Quando milhões de cidadãos passam a desconfiar das instituições, quando decisões judiciais são interpretadas como interferência política e quando qualquer lado passa a acreditar que as regras podem mudar conforme o resultado desejado, a própria legitimidade do processo começa a ser questionada.
É por isso que este segundo turno exige muito mais do que torcida. Exige atenção, memória, leitura e responsabilidade.
O eleitor precisa olhar para os candidatos, seus históricos, suas propostas, seus aliados e, principalmente, para o país que deseja construir. Não se trata de entregar um cheque em branco a ninguém. Trata-se de exercer o voto com consciência e cobrar, depois das eleições, respeito às leis, à Constituição, às liberdades individuais e à vontade popular.
O Brasil não pode se acostumar com a ideia de que instituições estão acima da sociedade. Nenhum poder é maior que a Constituição, e nenhum projeto político deveria estar acima do país.
O segundo turno está diante de nós. A decisão pertence ao eleitor.
E, qualquer que seja o resultado, uma coisa precisa permanecer de pé: o direito de questionar, fiscalizar, discordar e exigir que aqueles que exercem poder prestem contas ao povo brasileiro.