Sorriso, MT, tem a 2ª maior taxa de estupros do Brasil (131,9/100 mil hab.) , mais de 3x a média nacional. Dados do Anuário de Segurança Pública 2025 mostram que crianças são as maiores vítimas , com crimes ocorrendo em casa e por familiares.

Dados do Anuário de Segurança Pública revelam que a prosperidade econômica de Sorriso, capital do agronegócio, coexiste com a segunda maior taxa de violência sexual do país, afetando principalmente crianças e adolescentes. Foto: divulgação.
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Por trás dos lucros recordes do agronegócio, município de Mato Grosso esconde uma epidemia de violência sexual que vitimiza os mais indefesos, muitas vezes dentro de suas próprias casas.
Um título sombrio assombra a próspera cidade de Sorriso, em Mato Grosso: o de segundo município com mais de 100 mil habitantes com a maior taxa de estupros e estupros de vulnerável do Brasil. Com um índice alarmante de 131,9 casos para cada 100 mil habitantes , mais de três vezes a média nacional de 41,2, a chamada capital do agronegócio expõe uma fratura social profunda, onde a violência sexual atinge níveis críticos, vitimando principalmente os mais jovens e vulneráveis, conforme revela o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado nesta quinta-feira (24).
O gráfico abaixo exibe as cinco cidades com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de estupro e estupro de vulnerável em 2024, com base nos dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

A riqueza que não protege
O dado estatístico, frio e contundente, estabelece um paradoxo brutal no coração de Mato Grosso. Sorriso ostenta o título de maior produtor individual de grãos do planeta, uma potência econômica movida por safras recordes, mas convive com uma crise social alarmante que se manifesta da forma mais cruel: a violência sexual contra seus cidadãos mais indefesos. Enquanto bilhões são colhidos nos campos, uma tragédia se desenrola silenciosamente, levantando questionamentos urgentes sobre as estruturas de proteção social e a capacidade das instituições de segurança e justiça em responder ao problema.
Embora o Anuário não detalhe o perfil das vítimas especificamente em Sorriso, os dados nacionais fornecem um retrato provável da realidade local, e ele é devastador. Em todo o Brasil, a violência sexual tem alvos bem definidos: 76,8% dos casos são classificados como estupro de vulnerável. Este termo jurídico se refere a crimes cometidos contra menores de 14 anos ou pessoas que, por qualquer motivo, não podem oferecer resistência, tornando o crime ainda mais covarde.
A análise por faixa etária revela que a infância e a adolescência estão no epicentro da violência. Crianças de 10 a 13 anos representam a maior fatia das vítimas, com 32,9% do total de casos no país. Somam-se a elas as crianças de 5 a 9 anos (18,2%) e as de 0 a 4 anos (10,3%). Juntos, esses grupos compõem mais de 61% de todas as vítimas de estupro no Brasil, uma constatação que aponta para um crime predominantemente pediátrico.
A ameaça dentro do lar
Diferente de outros crimes violentos que dominam o debate público, o estupro é um delito que ocorre majoritariamente no ambiente doméstico. Segundo o Anuário, 65,7% dos casos acontecem dentro da própria residência da vítima. Este dado desmonta a percepção de que a ameaça vem de um estranho nas ruas e revela que, para a maioria das vítimas, o perigo reside no espaço que deveria ser o mais seguro.
A identidade dos agressores confirma essa dinâmica perversa. Em 45,5% dos registros em que o autor foi identificado, o estupro foi cometido por familiares da vítima. Outros 20,3% dos agressores são parceiros ou ex-parceiros íntimos. A violência, portanto, é frequentemente perpetrada por pessoas do círculo de confiança, o que torna a denúncia um ato de extrema complexidade e coragem.
Um legado de violência
O desafio imposto à sociedade de Sorriso é, portanto, monumental. A prosperidade que brota da terra convive com uma barbárie que destrói vidas, e a superação desse abismo exigirá mais do que a celebração de recordes de safra.
A responsabilidade recai diretamente sobre a nova gestão municipal. O prefeito Alei Fernandes (União Brasil), eleito para o mandato de 2025 a 2028, assume a administração com a missão inadiável de encarar de frente esses números vergonhosos. A implementação de políticas públicas robustas de prevenção, o fortalecimento da rede de acolhimento às vítimas e a cobrança por uma responsabilização rigorosa dos agressores serão o verdadeiro termômetro do sucesso de seu governo, para além das cifras do agronegócio.