Com fertilizantes mais caros e preço da soja instável, produtores apertam os cálculos e adiam decisões estratégicas à espera de melhores condições de mercado.
O produtor mato-grossense entra na reta de planejamento da safra 2025/26 com um desafio crescente: equilibrar custos em alta com margens cada vez mais apertadas. Segundo levantamento do Imea, o custo médio do hectare da soja no estado já chega a R$ 4.118,61. Desse total, quase R$ 1.900 correspondem a fertilizantes e corretivos, valor 9,2% superior ao registrado na safra anterior.
Na prática, esse aumento tem freado o ímpeto dos agricultores. A poucos meses do início do plantio, famílias como a dos Klein ainda revisam estratégias para os 5,3 mil hectares previstos. “O custo subiu de 10% a 15%. E o preço da soja não acompanha. Para fechar a conta, estamos falando em mais de 55 sacas por hectare”, relata Vanderlei Klein.
O cenário se repete em outras regiões. Em Nova Mutum, o consultor agronômico Naildo Lopes, que atende 148 produtores em uma área de 35 mil hectares, afirma que a maioria ainda não conseguiu fechar o planejamento com segurança. “No ano passado, trabalhávamos com 46 a 48 sacas. Este ano, precisamos de 53 a 55, e os recursos estão escassos e caros, com juros em torno de 17% a 18%”, alerta.
A instabilidade no mercado preocupa lideranças locais. O presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Paulo Zen, chama atenção para o desequilíbrio entre receita e custo: “Estamos entregando soja a R$ 110, o mesmo valor projetado para a próxima safra, mas com custos 8% a 9% mais altos. Isso não fecha.”
Na região da BR-163, muitos ainda não adquiriram insumos. Thiago Strapasson optou por aguardar oportunidades e usar o milho como moeda de troca. “O produtor que não fizer as contas vai cair do muro”, resume.
Uma pesquisa realizada pela Aprosoja Mato Grosso em parceria com o Imea aponta redução na adubação como estratégia emergencial. “Alguns estão aproveitando reservas, mas isso pode afetar a produtividade e pressionar ainda mais a inflação”, destaca Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja.
Enquanto isso, nas revendas o sinal também é de alerta. Marcelo Cunha, tesoureiro da Cearpa, calcula um aumento de até 18% nos preços de insumos em relação ao ano anterior. “Se os estoques baixarem, o repasse será inevitável. O ideal é o produtor se organizar e tentar travar preços agora, seja em reais ou hedge em dólar.”
O clima é de cautela. Planejar virou verbo essencial no campo — e a safra 2025/26 exigirá mais do que nunca equilíbrio entre gestão financeira e estratégia comercial.
Fonte:Rádio Rota FM